Podcast Play Pequeno Monge Agostiniano – tema da Solenidade da Santíssima Trindade

Liturgia da Palavra
Provérbios 8,22-31
Salmos 8,4-5.6-7.8-9
Romanos 5,1-5
João 16,12-15




Deus é o “mistério”. Isso não significa, estritamente, sua inacessibilidade ou incognoscibilidade*. Significa antes que, enquanto “nele nos movemos e existimos” (At 17,28), nossa compreensão não consegue englobá-lo. Por isso, ele se manifesta exatamente naquilo que nos envolve, em primeiro lugar, na insondável sabedoria com que o universo foi feito. Assim, o judaísmo viu na sabedoria de Deus uma realidade preexistente ao próprio universo: a primeira criatura de Deus (1ª leitura). Aos poucos, o que os antigos vagamente vislumbraram articulou-se mais claramente naquele que João chama “a Palavra” (de Deus), Jesus Cristo, que não apenas nos faz ver a maravilha da  inteligência divina na Criação, mas nos revela o mais íntimo ser de Deus: seu amor (evangelho). Porém, a revelação de Deus em Jesus Cristo, necessariamente histórica – pois ser amor para homens históricos só é possível de modo histórico -, não desapareceu com Cristo. O Espírito que animou Cristo ficou conosco e tornou-se para nós sua memória atuante, eterna presença daquele que, no sentido mais pleno pensável, é o “Filho de Deus”. É essa a linha que une a 1ª leitura ao evangelho. No meio (2ª leitura) está um texto de Paulo sobre o mistério do amor divino manifestado em Jesus Cristo: Rm 5,1-5. O homem encontra a justificação, ou seja, a aceitação por Deus, na fé em Jesus Cristo: fé que é confiança de vida e adesão comprometida. Entregando-se a Jesus Cristo, a sua palavra e exemplo, o homem cai, por assim dizer, nos braços de Deus. Por isso, até as tribulações enfrentadas por causa do Cristo são uma felicidade, pois nos unem a ele mais ainda.

A vida se transforma então em constância que não decepciona, pois já temos as primícias da realização da plenitude: o Espírito que foi derramado em nós. Paulo conhece Cristo somente “no Espírito”. Não o conheceu fisicamente, mas o “vive” pela presença de seu Espírito – presença que é o início da plenitude das promessas de Deus, a “paz” (cf. v. 1). Na presente liturgia aparece claramente que o mistério da SS. Trindade contempla o que nos ultrapassa: a tríplice realidade da uma divindade, do uno Deus-Amor. Parece “incompreensível”, mas não é inacessível. A riqueza da realidade divina, presente em Jesus de Nazaré e em seu Espírito, que anima a história da Igreja como animou também a história salvífica anterior, não se deixa “com-preender” em nossos conceitos lógicos, mas envolve-nos. Pode-se comparar Deus com o horizonte. A gente nunca o consegue englobar na vista, antes pelo contrário: quanto mais se penetra nele, tanto mais ele se amplia e se aprofunda.

Descobrimos tal horizonte, não só na transcendência que fundamenta todo o ser (Deus criador), mas também na existência de Jesus e na atuação do Espírito transcendente (não sujeito a nossas categorias) que nos impulsiona. Penetramos nesse horizonte, e quanto mais nele penetramos, tanto mais se revela como mistério. Não o podemos compreender, mas sim, celebrar.

A partir da presente liturgia pode-se fazer uma meditação sobre a inserção do cristão neste mistério, hoje. Um mistério serve para inserir-se nele (cf. os “mistérios” da antiga Grécia), um horizonte toma sentido quando a gente se deixa envolver nele. Ora, se em Cristo conhecemos o Pai (Jo 16, 15a), e se tudo o que se realizou em Cristo, em termos de revelação divina, é atualizado para nós na percepção do momento histórico eclesial (16,13), a verdadeira celebração da tríplice presença de Deus acontece quando, diante da realidade de hoje, rejeitamos os falsos deuses da posse, do poder e do prazer, assumindo o caminho de Cristo, o caminho do amor que fala de Deus, no engajamento proposto pela comunidade eclesial, animada por seu Espírito: o caminho dos pobres, das vítimas dos falsos deuses… Outra linha de explicitação da liturgia de hoje poderia ser o tema da justificação pela fé, sobretudo por estarmos no ano “lucano” (Lc tem em comum com seu mestre Paulo uma especial atenção pela gratuidade do amor de Deus). O texto de Rm 5, l ss sugere que a justificação gratuita pela fé é o deixar-se envolver na comunhão do amor do Pai e do Filho.


Para muitas pessoas, a pregação da Igreja a respeito da Trindade é obscurantismo*. Para que ofender a inteligência dizendo que Deus é ao mesmo tempo um e três? Tal pergunta é tão precipitada quanto o marido que não tem tempo para escutar sua mulher quando ela lhe abre a complexidade de seu coração. Deus quer manifestar a sua riqueza íntima, mas nós não queremos escutar o Mistério. Preferimos o nível de entendimento de uma maquininha de calcular…

Deus é um só, sempre o mesmo e fiel, mas ele abre seu interior em Jesus de Nazaré, um ser pessoal, livre e autônomo. Deus se dá a conhecer no modo como Jesus, livremente e por decisão própria, nos amou e nos ensinou, sendo para nós palavra de Deus, muito mais do que a sabedoria tão elogiada pelo Antigo Testamento (1ª leitura). E depois que Jesus cumpriu sua missão, perpetua-se para nós a “palavra” que ele tem sido, numa outra realidade pessoal, o Espírito de Deus, a inspiração que, vinda de Deus e de Jesus, invade o nosso coração, a ponto de nos tornar semelhantes a Jesus (2ª leitura). Tanto em Jesus como no Espírito Santo, quem age é Deus mesmo, embora sejam personagens distintas.

Riqueza inesgotável que a Igreja nos aponta para que saibamos onde Deus abre seu íntimo para nós: no seu Filho Jesus e no Espírito de Jesus que nos anima. Lá encontramos Deus, e o encontramos não como bloco de granito, monolítico, fechado, mas como pessoas que se relacionam, tendo cada uma sua própria atuação: o Pai que nos ama e nos chama à vida; o Filho Jesus, que fala do Pai para nós e mostra como é o Pai, sendo bom e fiel até o dom da própria vida na morte da cruz; e o Espírito Santo, que doutro jeito ainda, fica sempre conosco. O Espírito atualiza em nós a memória da vida e das palavras de Jesus e anima a sua Igreja. E todos os três estão unidos e formam uma unidade naquilo que Deus essencialmente é: amor.

Essas reflexões não visam a “compreender” a Trindade como se compreende que 1 + 1 = 2! Visam a abrir o mistério de Deus, que é maior que nossa cabeça. Santo Agostinho, ao ver uma criança na praia colocar água do mar num poço na areia, caçoou dela, dizendo que o mar nunca ia caber aí. E a criança respondeu: “Assim também não vai caber na tua cabeça o mistério da Santíssima Trindade”. Pois bem, se não conseguimos colocar o mistério do amor de Deus em nossa cabeça, coloquemos nossa cabeça e nossa vida toda dentro desse mistério!

*INCOGNOSCIBILIDADE. Característica, estado ou particularidade de incognoscível; qualidade do que é difícil de conhecer.
*OBSCURANTISMO. (Do latim
obscurans, "escurecimento") é a prática de deliberadamente impedir que os fatos ou os detalhes de algum assunto se tornem conhecidos. Mais especificamente, há duas denotações históricas e intelectuais comuns de "obscurantismo": 1. Deliberadamente restringir o acesso do povo ao conhecimento; 2. Um estilo de ser obscuro (como em literatura e arte) caracterizado pela indefinição deliberada.